James Wood e a literatura como um sistema de crenças

James Wood caminha devagar pelos corredores da Escola de Artes da Universidade Columbia embora pareça estar sempre um pouco atrasado. Levemente curvado para frente e aparentando timidez, parece tentar fugir da eventualidade de pisotear alguém com sua espalhafatosa aura de crítico da New Yorker que acha David Foster Wallace entediante e que Zadie Smith sofre de histeria.

Em uma pequena sala de aula, 20 alunos do mestrado em criação literária se espremem em cadeiras de plástico pretas alinhadas entre uma longa mesa de fórmica e paredes bege esperando pelo professor. Na chegada, Wood tira o paletó escuro e tenta apoiá-lo sobre o encosto da cadeira. O paletó escorrega para o chão, onde permanece até o fim da aula. Dobra as mangas da camisa branca, que tem os dois primeiros botões abertos. De uma pasta retira um CD. Toma emprestado o computador de um aluno. Ouvimos a uma das “Variações Goldberg” na interpretação de Glenn Gould. “Agora vocês imaginem o que foi para esse narrador ter crescido e estudado com Glenn Gould.” Nas duas horas seguintes, conversamos sobre O náufrago, de Thomas Bernhard. O professor quer saber o que pensam os alunos sobre os livros que serão estudados ao longo de dois meses de encontros. Dentre todos, apenas Thomas Bernhard não tinha sido analisado em seu Como funciona a ficção, lançado em Nova York pouco antes do início das aulas.

Wood está preocupado com a construção de um entendimento comum, de um common reader. Naquela sala, leitores são também escritores. E ele não está particularmente interessado em ser o dono da razão. Se um de nós faz algum comentário que difere do seu, ouve com atenção, depois emenda uma frase repetida muitas vezes ao longo do curso: right, perfect, you’re absolutely right. E então parte para elaborado exercício retórico na tentativa de aproximar os dois comentários. O texto deveria permitir variados entendimentos, não é um sistema fechado.

Em outra aula, Wood distribui um pequeno esquema feito à mão em papel sulfite, a lápis, onde tenta organizar a estrutura do livro A primavera da Srta Jean Brodie, de Muriel Spark. Os seis capítulos estão subdivididos nos anos em que agem as personagens e para cada ano corresponde uma letra do alfabeto, com marcações de flash-backs e flash-forwards, de A a Y.

Em um terceiro momento, nos dá cópias da terceira página da novela Companhia, de Samuel Beckett, com anotações em letra quase infantil. Detém-se numa frase: For she shook off your little hand and made you a cutting retort you have never forgotten. Contenção de emoção, ao longo do texto, até o momento único de descarga emotiva rápida e sucinta, um pequeno e pujante jorro doído que não pode jamais ser transformado em epifania.

O que dá consistência ao trabalho de Wood é a ideia de que a literatura é um sistema de crenças em conexão direta com a realidade.

Wood não é apenas um dos críticos mais respeitados de sua geração. É também um professor de carreira igualmente prodigiosa. Começou dando aulas com Saul Bellow, na Universidade de Boston. Hoje, é professor em Harvard, com passagens por Columbia. Em seus trabalhos, mergulha com convicção na leitura e interpretação dos livros. Se mantém aberta a possibilidade de leituras diferentes da sua, é também com igual segurança que responde às provocações, reafirmando sua posição.

O que dá consistência ao trabalho de Wood é a ideia de que a literatura é um sistema de crenças em conexão direta com a realidade. Em outros termos, é um sistema moral. E como tal, se ergue e gira em torno do sujeito, dos personagens, e suas relações com o mundo.

No ensaio introdutório ao livro The Broken State, Wood escreve: “Ficção é uma forma de mentira e, historicamente, como sabemos, este comércio com o inverídico deixou leitores desconfortáveis. […] A ficção pede que tenhamos fé, mas podemos a qualquer momento escolher não acreditar. […] Na ficção, o leitor é sempre livre para escolher não acreditar, e esta liberdade, esta zona sombria de dúvida, é o que ajuda a constituir a realidade da ficção”.

Na discussão sobre “A morte de Ivan Ilitch”, Wood diz que Tolstói não constrói uma personagem completa. Ilitch “é completamente ordinário”. O que Tolstói parece querer dizer com a novela é: “assim é que é morrer, assim é sofrer em solidão”. A construção das personagens na ficção estaria diretamente relacionada à ideia de alteridade, a de “vestir os sapatos” do outro.

“Estamos adaptados a criar a versão ficcional de nós mesmos. Romances são particularmente bons em compartilhar essa performance. Porque é isso o que vemos.” No entanto, cita Henry James, “as personagens se apresentam a partir da ideia que têm de si mesmas. É tarefa do autor aproximar-se delas para construir uma visão melhor”. A isso, Wood chama de certa tradição britânica, a balanceada mistura entre omissão do narrador e controle autoral.

Wood chega a afirmar que a literatura é melhor do que a filosofia na tarefa de mostrar a complexidade de nosso tecido moral.

Em um texto curto de 1944 (“Formas do Romance”), Otto Maria Carpeaux faz uma rápida distinção entre três grandes escolas de romance: a inglesa, a francesa e a espanhola. A francesa se voltaria às formulações psicológicas e filosóficas. A espanhola, como resistência ideológica. Já a tradição britânica seria a de um romance moral, reforçado pelo controle autoral e a omissão do narrador, onde é preciso mostrar os personagens agindo, em vez de apenas contar o que fazem.

Em A Primavera da Srta Jean Brodie, diz Wood, Spark, “não apenas põe em prática um controle autoral onisciente como tem também uma espécie de senso austero e limitado de liberdade individual”. No livro, uma professora do ensino fundamental de Edinburgo tenta “formar” cinco pupilas: o grupo Brodie. A história parece filtrada por uma das alunas, Sandy Stranger, a mais “perspicaz”, como se ela fosse a própria narradora disfarçada, detrás de um narrador que se omite, supostamente neutro, mas profundamente moral. Anos depois, Ian McEwan tomaria o exemplo desse narrador para construir a escritora Briony Tallis, de Reparação.

Wood chega a afirmar que a literatura é melhor do que a filosofia na tarefa de mostrar a complexidade de nosso tecido moral. Essa é a sua força, a crença. Sendo também um romancista (The Book Against God, 2003), o que diz tem o peso de quem está em ambos os lados desse sistema.

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No final daquele semestre, em Columbia, James Wood cruza com Zadie Smith no corredor. Smith daria aulas para a mesma turma, no ano seguinte. A animosidade em março de 2013 que se esperaria do encontro, depois de sucessivos debates em jornais britânicos e americanos ao longo de anos, não se confirma. Ficam de conversa por alguns minutos. Sorrisos e expressões de complexidade se intercalam.

No ano seguinte, Zadie Smith também pede aos alunos que leiam “A primavera da Srta Jean Brodie”. As discussões, no entanto, seguem por caminhos diferentes. Enquanto Wood está preocupado em entender como Muriel Spark opera saltos temporais na constituição da visão moral de um mundo que se desintegraria com a segunda guerra mundial, Smith parece mais preocupada com a personagem da professora Brodie, com as sutilezas da autora na construção de um imaginário poético e humano, ainda que fragmentado. Chega ao ponto de se apropriar de uma das falas da personagem: “The Philistines are upon us”, diz. Mas esse já é assunto para outro texto.

 

  • texto publicado no blog da editora Cosac Naify em março de 2013 (» link)