Na internet, ser feliz é que é preciso

Se ganhasse na loteria, nunca mais acessaria Twitter, Facebook, Linkedin, nem qualquer outra rede social ou site de comunicação como Instagram, Pinterest, Showyou, Socialcam, Tumblr ou Google +. Sairia definitivamente do Foursquare, que nunca entendi para que serve. Manteria apenas meu blogue. Talvez nem isso. Criaria uma página simples, como se fazia nos anos 90, com links para uma bibliografia e contatos, sem requintes visuais. Daria preferência a revistas e jornais com versões próprias para tablets e aparelhos móveis.

O dinheiro da loteria, além de garantir qualidade de vida, plano de saúde e aposentadoria, também me livraria do “vácuo atormentado” que se tornou a internet. A expressão é de Carlos Drummond de Andrade, no poema Campo de Flores, escrito nos anos 50. Muitos anos antes da invenção da web (embora muito depois da Torre de Babel).

Na primeira metade do século passado, Drummond via na expansão da rede de telefonia fixa sinais dos problemas que enfrentamos agora com a internet: intromissões na vida alheia, projeções ininterruptas de fatos irrelevantes, fluxo contínuo de notícias catastróficas, a busca doentia pela face de sucesso de personalidades e anônimos.

“Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas”, escreveu Drummond em Elegia 1938.
Nas redes sociais, hoje, o mesmo se repete. Desta vez com imagens e vídeos: os mesmos desejos de sempre por trás de fotos capturadas em celulares para mostrar nossos melhores momentos e ângulos, os instantes de brilho, de preferência com o sol se pondo atrás do Morro Dois Irmãos, o amanhecer no Lago Titicaca, talvez montado sobre elefantes numa pequena vila da Índia. Quando não é o extraordinário turístico, é o sensacional dentro da própria casa: um festival de fotos de gatos, cachorros, pratos de comida, taças de vinho, conhaque e rótulos de uísque.

Basta ligarmos um aparelho eletrônico qualquer para sermos lembrados desse mundo exorbitante, recém descoberto na passagem do século 20 para o 21, um espaço que parece maravilhoso e de oportunidades inesgotáveis, mesmo que organizado como uma sucessão de mentiras, inutilidades, preconceitos e auto-indulgências: um enorme “sistema de erros”, para voltarmos a Drummond.

É a visão de um mundo distópico, que precisa de energia 24 horas por dia, 7 dias por semana. E, em busca de energia, faz-se hidrelétricas, usinas atômicas, plataformas e refinarias de petróleo, e etc.

Utopia, para um tempo futuro, será o privilégio de não ter um computador de mesa, um laptop, um ultrabook, um tablet ou um smartphone, todos interconectados, ligados também com o sistema de som de casa, com o carro e a geladeira. Privilégio mesmo, resguardado apenas aos muito ricos, aos que ganharam na loto, aos loucos e aos indigentes, será poder viver em espaços analógicos, sem ondas de rádio, sem redes sem fio, sem TV, sem 3D, sem telefone.

O mundo sem conexão digital é o mundo utópico, onde as pessoas resgatam conexões pessoais, voltam a viver dentro dos fluxos da natureza. Seria uma reedição do sonho hippie dos anos 70: a conexão com a terra e, por tabela, com a humanidade. Mas seria também um paradoxo, ter como utopia do século 21 o mesmo que um dia serviu para os anos 60 e 70.

A internet e a cultura digital absorveram grande parte desse grupo que cresceu com os primeiros impulsos da contracultura. Não porque sejam aficcionados por tecnologia, ou viciados em informação. O que une os pós-hippies à tecnologia é o antigo sonho de dar o poder ao povo, às pessoas comuns e, com isso, estabelecer conexões mais “reais” entre as coisas e os seres.

A internet seria ela mesma a realização desse sonho. Foi construída por ninguém e por todos ao mesmo tempo. Precisou de colaborações de governos, de grandes empresas privadas capitalistas e de cidadãos com as mais diversas inclinações políticas e crenças, moderados ou não. Na rede encontra-se colaborativismo e fundamentalismo, auto-ajuda para o sucesso profissional ou para construir bombas, dicas para se construir um negócio ou meios para se acabar com o sustento dos outros.

O poder ao povo que a internet proporciona faz lembrar aqueles primeiros momentos da Revolução dos Bichos, de George Orwell. A primeira constatação, quando todos se dão conta de que podem fazer tudo, é de que caímos no pandemônio. O termo pandemonium é criação do poeta inglês John Milton, no Paraíso Perdido, e significa exatamente o que parece: demônio coletivo.

São muitos os relatos históricos de períodos em que a humanidade pareceu viver em pandemônio. Lembremos da Torre de Babel e de Sodoma e Gomorra. Esses momentos históricos ou míticos têm algo em comum com o clássico de Orwell: como solução ao caos, alguém sempre sugere uma ordem. E a ordem, geralmente, pressupõe uma hierarquia: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”.

É o que se está tentando fazer com a internet. No Brasil, o Marco Civil da Internet definirá princípios gerais para a rede e impedirá que iniciativas isoladas de deputados possam restringir a liberdade dos usuários. Nos EUA, congressistas tentam passar leis que criminalizem algumas práticas na rede, sugerindo a vigilância das navegações. Em todo o mundo, contra os excessos da rede, propõe-se regras que cerceiam a liberdade.

São soluções alopáticas. Proibir o efeito, sabe-se, não asfixia a causa. É apenas mais uma utopia, e das mais antigas: a ilusão de que para viver bem basta isolar-se dos problemas e defeitos dos homens. Isso quer dizer que, no fundo, ganhar na loto, ou se chamar Raimundo, não são solução.

Não é o isolamento que liberta, já deveríamos saber. Não é a proibição que acalma o pandemônio. O que coloca o caos em perspectiva é a aceitação. Na rede encontramos os sinais de toda a humanidade. E nesse navegar pelas mais improváveis expressões humanas é que a todo momento desafiamos uma multidão de vozes que buscam afirmar-se exclusivamente, negando-se mutuamente, gente que parece acreditar que o importante não é navegar, e sim ser feliz. Mas é justamente esse choque que nos coloca em movimento, em perspectiva, que ressalta nossa diferença com os outros. E a diferença é o que nos faz vivos.

 

* publicado no Diário do Comércio em 23 de novembro de 2011.