Sobre o mistério do mundo nos fechos de um sutiã

Na alta madrugada, já livres das camisas, jogadas sobre o braço do sofá porque não houve tempo de se chegar ao quarto, você desliza suavemente o indicador da mão direita subindo da cintura às costas dela até encontrar a banda de tecido macio, tão macio quanto a pele, e ali, ao centro, enfim, os três fechos alinhados aos colchetes de metal como cadeados armados. Com uma leve pressão você os sente saltarem, impulsionados pela força do elástico, e finalmente o sutiã se desprende do corpo como um suspiro sensível apenas ao seu ouvido, os rostos colados, cabelos emaranhados.
Você vê de relance um rastro do sutiã aberto, as alças de renda deslizando por sobre os ombros e antebraços dela, caindo para frente, o tecido sensível do bojo de renda esbarrando no seu peito desaforado. Nesse instante, um mistério se desfaz. E durante horas você enxerga tudo com clareza. Horas em que articulam-se na sua mente, como uma certeza indubitável, os segredos dos homens, das mulheres, dos corpos, do encontro e do sexo, e o mundo parece tão simples como um raio de sol.
Como este raio de sol em que você só então presta atenção, porque acordam abraçados no sofá da sala e entre as persianas da janela, por entre a copa das árvores, este raio de sol atravessa a cidade e os alcança deitados naquele móvel que parecia tão barato e ordinário no mostruário da loja no ano passado e que agora, com o sol iluminando o seu rosto e o dela, os corpos ainda nus, o sol se esparramando pela sala, clareando as quatro ou cinco tramas diferentes nas rendas do sutiã esquecido no chão, faz tudo pertencer a uma secreta ordem, uma ordem pela qual você esperou muito para compreender, e em silêncio e a si mesmo você promete que jamais sairá de dentro desse mistério que mal consegue explicar, mas que sente com tamanha força e de forma tão nítida.
Você pensa em como não haverá mais segredos dali em diante, nenhuma dúvida, em como estar juntos e próximos e dentro mesmo um do outro os torna grandes, e como se fosse possível flutuar para além do corpo e misturar-se como os gases na atmosfera, você a beija mais uma vez, e olha pela janela diretamente para o sol, e ela cheira seu corpo ainda uma vez. Você pensa, somos animais, afinal, simples animais, e fecha os olhos em uma estranha comunhão com seu tempo, com seu mundo.
E nesse instante, então, cruza o céu o primeiro avião do dia, inaugurando o pêndulo do trabalho e do dinheiro. Você sente, através das pálpebras fechadas, quando as asas da máquina bloqueiam os raios de sol por uma fração de segundos e uma sombra atravessa seu pensamento. E como que em conluio armado contra vocês, logo em seguida o zelador escorrega os jornais do dia por cima do capacho da porta de entrada.
Vocês abrem os olhos e num momento de hesitação a mão dela balança para alcançar o sutiã esquecido no chão. Ela se senta de costas para você, na borda do sofá, os pés descalços sobre o piso frio da sala. O sutiã volta a encaixar-se sobre os braços, os antebraços, cruzam os omoplatas, envolvem e se acomodam sobre os seios. Com os braços retorcidos para trás, em sua direção, ela aproxima as duas pontas soltas desde o início da noite. Você assiste. Ela move os braços com destreza. Não precisa de você. Uma aba do tecido se movimenta por sobre a outra até que os três pequenos fechos de metal se enroscam nos colchetes da outra ponta e um novo círculo de mistérios se completa.
Você sente que ficou de fora. Então olha para ela e pensa ter se enganado há pouco quando imaginou serem os dois apenas animais, descomplicados animais selvagens. Quem será ela, afinal? Como descobri-la novamente? Enquanto você se perde em pensamentos, ela já terminou de se vestir e se levanta, pega as roupas que você deixou espalhadas pelo chão e as coloca ao seu lado, para que você se vista.
Ela caminha pela sala e se olha no espelho. Abotoa mais uma casa da camisa. Joga os cabelos para trás por sobre os ombros e desliza os dedos sobre as pálpebras dos olhos traçando um arco de estímulo contra o rosto. Você ouve portas se abrirem e baterem na área de serviço. De algum lugar surge um aroma de café coado. O elevador ronca no corredor. Você se veste, enfim.
Você hesita entre o café, o jornal, ou continuar olhando para ela. Pensa em pedir que volte para o sofá, que esqueçam do trabalho e passem o dia deitados, nus, alimentando-se apenas de um cacho de uvas, dos queijos e torradas que restaram de ontem, e se lembra dos vinhos na dispensa.
Mas ela abre o jornal e suja a mesa da cozinha com as manchetes do dia. Ao lado, a tela do celular se ilumina com alguma mensagem que ela olha de relance, e ignora.
Lentamente você percebe que se coaduna novamente em torno de vocês, não, entre vocês, o mistério insondável do mundo, das coisas, e dos relacionamentos. Ela vira a página do jornal e você vê, agora já longe, uma borda do sutiã que escapa por entre os botões da camisa. Você bebe um gole de café.

*Publicado originalmente, em versão reduzida, na revista Liz, 2014. (http://www.liz.com.br/revista/#page/55)