Existe e está aqui e então acaba

Capa do livro "Existe e está aqui e então acaba"

Após passar o Réveillon no Rio de Janeiro, um professor de literatura viaja para uma pequena cidade do agreste pernambucano para visitar um amigo e dar um curso sobre literatura clássica. Intrigado pela história da região e pela família do amigo, o professor inicia uma busca pelas origens da cidade. O livro é uma viagem de transformação desse narrador a partir do mergulho no desconhecido do próprio país, um percurso de exílios, voluntário ou não, conectando os primórdios da literatura ocidental com os territórios perdidos do sertão brasileiro.

 

Do livro:

“Aqui ninguém fala onde nasceu. Ninguém veio de lugar nenhum. Simplesmente existe e está aqui, e tem filhos e pais e irmãos e tios e então o mundo acaba. E não acaba. Para além disso é invenção que ninguém pode provar. Sim, tem um segredo, que está na raiz de tudo, que explica tudo, tem um segredo, sim, mas ninguém sabe dizer qual é. Que a gente sente, e que controla tudo o que a gente faz, mas que ninguém sabe dizer o que é. Quem poderia dizer já não está mais aqui. A gente vai querer continuar procurando descobrir, mas não tem mais jeito, não. Ninguém nunca mais vai descobrir. Nunca ninguém vai descobrir enquanto não aceitar o que vê. As coisas estão aí no mundo, mas precisa quebrar a casca do mundo para enxergar, precisa mergulhar bem fundo para aquele que está no alto poder enxergar”.

 

Sobre o livro:

“O Réveillon nas areias cariocas, pelas cenas de alegria vazia, imundície e vulgaridade que testemunhou, não foi o que trouxe um efetivo ‘ano novo’ para a vida enfastiada do professor de literatura que protagoniza o novo romance de Roberto Taddei. A transformação veio da viagem que vem tirá-lo dos confortos da ‘civilização’.
Ele vai para uma pequena cidade do interior de Pernambuco para rever um amigo e dar um curso – não por acaso, versando sobre obras como a ‘Odisseia’ e a ‘Divina Comédia’, que, ao sabor agreste das descobertas insólitas que vão acontecer, acentuam o valor arquetípico (já não como insípido chavão literário) da viagem como deslocamento espacial e interior, propício a desbravar o desconhecido e ‘desesquecer’ (sentido da palavra grega para a verdade, ‘aleteia’) o originário.”

Caio Liudvik (no Guia de Lançamentos da Folha de S. Paulo)

“A perspectiva da narrativa de Taddei reitera o quanto qualquer deslocamento guarda em si também o desejo de um exílio emocional. Um professor de literatura, em meio a uma crise emocional e à deriva, decide passar um período morando numa pequena cidade do Agreste, onde começa a lecionar um curso de textos clássicos. Aos poucos, começa a perceber que está vivendo uma realidade artificial, onde o presente não passa de um simulacro de um passado a perturbar todos ao seu redor. ‘Aqui ninguém fala onde nasceu. Ninguém veio de lugar nenhum. Simplesmente existe e está aqui, e tem filhos e pais e irmãos e tios e então o mundo acaba. E não acaba’. Vale destacar a escrita delicada de Taddei, que consegue prender a curiosidade do leitor quanto ao mundo de incertezas à frente.”

(no Suplemento Pernambuco de maio/2015)

“Trata-se, afinal, da mais exemplar das narrativas, aquela que mostra no seu próprio exercício a utilidade fundadora da literatura, confrontando-se, no mesmo gesto, com a presença irredutível da vida e da morte, isto é, do que ‘existe e está aqui e então acaba’. Jogos de contar e de calar, entre memória e esquecimento. Não será nada por acaso que algumas das personagens de que menos nos esqueceremos neste enredo (Tripoí, Patrícia, Tonha, …) pouco falam e mal o sabem fazer. O livro de Roberto Taddei, esse, fala com eloquência de um silêncio assim.”

(José Manuel Teixeira da Silva, em Súbito de março/2016)

      – impresso
  • esgotado
     

      – e-book